Parto de Cócoras - Ancestral e Moderníssimo

18/11/2014
Autor: 
Dr. Marco Aurélio Valadares

A história da humanidade mostra que as mulheres sempre pariram de cócoras e que a partrir do século XVII, sob influência da corte francesa, elas passaram a parir deitadas, as parteiras saíram de cena e os obstetras ocupam lugar de destaque nos partos. Ao invés do obstetra ser um observador atento, vigilante aos partos que tornam-se patológicos, este tenta superar a própria natureza, intervindo muitas vezes sem necessidade no parto que evolui normalmente. Dentro de um contexto de uma sociedade patriarcal (machista), o homem expropriou o parto das mulheres. Dr. Marco Aurélio Valadares, um dos poucos médicos a fazer partos de cócoras em Belo Horizonte (artigo publicado em 2001), conta aqui a história da Obstetrícia.

(Na foto, o parto nos tijolos de parto)

A Corte Francesa deitou as mulheres

A Obstetrícia ocidental tem suas raízes na Euuropa do século XVIII e Mauriceau, obstetra francês é considerado o criador ou culpado por ter sido o primeiro a encorajar as mulheres a adotarem uma posição em decúbito dorsal. Na verdade, esta posição tornou-se conhecida como posiçãof rancesa, em contraste com a posição deitada em decúbito lateral, utilizada na Inteltaerra e conhecida como posição inglesa.

A princípio, a postura deitada ou reclinada era recomendada no momento do parto, porém, durante os três séculos seguintes seu uso foi firmemente estendido para abarcar todo o trabalho de parto. 

A história e a antropologia revelam que desde suas origens até o presente as mulheres em sociedades sem influência da obstetrícia ocidental quase universalmente adotaram alguma forma de postura ereta no parto. Elas ficavam dependuradas, agachadas, sentadas, ajoelhadas ou de cócoras, frequentemente mudavam sua posição durante cada contração.

Desde 3000 anos a/c, mostram-se partos atendidos em posição vertical. Há uma escultura mexicana que imita o nascimento da Deusa da Fecundidade, na posição de cócoras. O estudo do parto em grupos de populações primitivas, não influenciadas pela medicina ocidental moderna, encontravam sempre posições de pé ou de joelho. No México e na África, por exemplo, as mulheres muitas vezes se agarravam  em uma corda pendura no teto. O mesmo na Arábia, na Pérsia, na Rússia e ainda nos Estados Unidos, na época colonial. 

Na foto ao lado, quando as mulheres saíram das cadeiras de parto (abaixo) para uma posição semi-deitada.

A cadeira de parto é relatada em vários papiros médicos e encontrados restos em pedra, na Casa de Partos em Luxor, próximo ao ano 1450 a/c. O Assírios (1100-606a/c) também usavam a cadeira obstétrica. Existe referência na Bíblia (1º Capítulo do Êxodo) sobre cadeiras usadas pelas parteiras judias entre 700 e 140 d/c. Na Grécia clássica, Hipócrates, que era filho de uma parteira, recomendava o uso da cadeira especialmente para facilitar partos difíceis. Na antiga Roma esta era recomendação de Soranus de Éfeso (98-177 d/c) que fez descrição da cadeira obstétrica mostrando seu valor para a prática médica. Na Europa, existem evidências que mostram seu uso até o final do século XIX.

 

Modernidade

E em torno do final do século XIX, Engelman e Alfeld, posicionaram-se pelo retorno à posição vertical e pela reutilização da cadeira obstétrica. Alguns obstetras de reonome deram contribuição decisiva para a divulgação de uma moderna cadeira obstétrica. Com isto, reinicia-se um terceiro ciclo da sua história. Como exemplo, citamos Roberto Caldyra Barcia, do Uruguai, com seus trabalhos sobre partos sentado; Moysés e Cláudio Paciornik, por seu pioneirismo com o parto de cócoras e pesquisas nas tribos indígenas brasileiras. E ainda, Dr. Hugo Sabatino, da UNICAMP, com um trabalho multidisciplinar. Portanto, o parto ancestral também é um parto moderno, "moderníssimo", talvez o parto deste novo milênio, com a mulher assumindo uma posição ativa diante do mundo e da capacidade de partir um ser humano.

(Este artigo foi publicado na primeira edição do Jornal Bem Nascer - publicação da ONG Bem Nascer, em 2001)

 

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