Relatos de parto

Laura

Lívia & Pedro

Meu relato de parto: Uma bela transformação
Por Lívia Barakat

Quarta-feira, 09 de março:
Fui à consulta semanal com a Dr. Avelina. Já estava se aproximando a data prevista para o parto da Laura (11 de março), mas ainda não tinha sinais claros da chegada dela. Na consulta da semana anterior, meu colo do útero estava fechado. Tinha receio de passar a data do parto e a ansiedade aumentar, mas queria muito que a Laura viesse no seu momento, sem procedimentos para acelerar sua chegada. Com agradável surpresa, a Avelina me informou que eu estava com 1cm de dilatação! Mas eu sabia que isso não queria dizer que a Laura chegaria nos próximos dias, pois poderia demorar bastante até de fato entrar em trabalho de parto... No dia anterior, eu tinha feito ultrassom e notei que o médico, o Dr. Ari, achou os batimentos dela um pouco baixos. Nada para se preocupar, mas compartilhei com a Avelina que sugeriu que eu fizesse um exame de monitoramento dos batimentos cardíacos meus e da Laura na maternidade Odete Valadares. No dia seguinte, estava eu lá.

Quinta-feira, 10 de março:
Como tudo durante a gravidez da Laura, o exame graças a Deus não indicou nenhuma alteração, mas serviu para me deixar mais tranquila. Aproveitei para conversar um pouco com a Avelina sobre meu plano de parto e ela me informou que eu já estava com 3cm de dilatação! Ela começou a especular sobre como iria organizar sua agenda no dia seguinte ou no fim de semana caso a Laura chegasse. Aí sim eu percebi que ela estava próxima de vir! Nesse dia eu completei 40 semanas de gestação. Já bem cansada, desisti de ir à feira do bebê e gestante, que era meu plano inicial e voltei para casa. Depois de dormir um pouco, encontrei com minha mãe e minha tia Amália no Diamond. Elas estavam bem ansiosas, mas para não criar expectativas, falei que poderia demorar ainda uma ou duas semanas e que já estava com a consulta da semana seguinte marcada. Voltei para casa e à noite, ao deitar, já estava sentindo cólicas mais fortes.
Sexta-feira, 11 de março:

Em casa, às 2h da manhã, acordei com contrações e comecei a observar. Notei que se repetiam de tempos em tempos e acordei o Pedro para juntos monitorarmos. Inicialmente de 8 em 8min, depois 7 em 7min, depois 4min, depois novamente 8min, 6min... às 3h da manhã, liguei para a Doula, a Lena. Eu já sabia que precisaria aguardar até que os intervalos estivessem a cada 5 em 5min, sendo assim, continuei monitorando e mandei mensagem para a Avelina. As horas foram passando e os intervalos das contrações se tornando mais curtos. O incômodo foi aumentando e com isso tomei um banho
quente para relaxar. Às 5h da manhã, as contrações se repetiam de 5 em 5min. Impressionante como foi exato! 5h00, 5h05, 5h10, 5h15... a Avelina me ligou e combinamos de esperar mais uma hora e se continuasse nessa frequência iríamos para o hospital. Continuei monitorando e às 6h confirmei para a Avelina que tinha atingido os “pré-requisitos” para ir para o hospital: contrações a cada 5min por uma hora! Já estava tudo pronto, minha mala, a da Laurinha, DVDs, etc. Terminei de conferir as coisas e saímos.
Chegamos à Maternidade Santa Fé pouco antes das 7h, demos entrada e ficamos esperando o médico plantonista que iria me examinar para dizer como estava minha dilatação. As contrações continuavam, acredito que no mesmo intervalo, mas já não estava mais marcando no relógio. A Lena nos encontrou no hospital e me perguntou qual a intensidade da dor que eu estava sentindo de 1 a 10. Eu, inocente, falei que achava que era uns 8... enquanto esperávamos eu bebi um Gatorade, ouvindo outras grávidas falando que eu não podia comer nem beber nada no dia do parto. Eu sabia pelos cursos que não tinha nada disso, mas preferi confirmar com a Avelina e tomei meu Gatorade tranquilamente. Conseguimos a liberação para a suíte de parto antes mesmo que o plantonista me examinasse. A Dr. Avelina já estava chegando e ela mesma iria avaliar.
Às 8h ela confirmou que eu havia entrado em trabalho de parto: 6cm de dilatação! Ela e a Lena comemoraram. Na hora não entendi bem o motivo da comemoração, mas depois fiquei sabendo que esse era o mínimo para que eu pudesse internar. Bom, daquele momento em diante começou o dia que eu tinha idealizado por 9 meses, ou melhor, desde que comecei a pensar em engravidar. Eu tinha tudo ali: minhas músicas favoritas, fotos de pessoas queridas que espalhei pelo quarto, óleo para massagem, o Pedro ao meu lado.... Planejei tudo para que fosse um dia muito especial e agravável. Não avisei ninguém pois queria o máximo de privacidade e tranquilidade. Nesse estágio, as contrações continuavam a cada 5mim e incomodavam mais. A Lena me perguntou novamente sobre a intensidade da dor e eu pensei que agora sim deveria estar em 8, numa escala de 1 a 10. As contrações iam e vinham, porém, estavam bem toleráveis. Por alguns minutos, pensei estar em um “resort”, num quarto espaçoso, com várias coisas para relaxar... De tempos em tempos me hidratava, o Pedro comprava picolé de limão para mim e até chocolate eu comi! Perguntei quando eu poderia usar a banheira e a Lena me disse “calma que a hora da banheira vai chegar”. Aí percebi que eu não estava ali por “lazer”... hahaha
As horas foram passando e entre conversas agradáveis, música, massagem, alongamentos, as contrações ficavam mais fortes. A cada 2h a Dr. Avelina me examinava e via que eu havia dilatado mais 1cm. Para mim tudo estava sendo tudo muito lento, mas ela parecia
feliz com a evolução. Assisti ao show do Matchbox 20, Paralamas do Sucesso, música clássica... O Pedro o tempo todo ao meu lado, me incentivando, ajudando nas massagens, me dando forças. Em torno das 13h, as dores haviam ficado muito intensas e entrei no chuveiro. Mal sabia eu que agora sim o 8 da escala de 1 a 10 havia chegado e que aquelas dores iniciais na verdade eram tipo nível 4 e 6... hehe Deixei bastante água quente cair nas minhas costas e pensei “por que mesmo eu tenho que passar por tudo isso?”.... Ao sair do chuveiro, sentia muito frio, as contrações voltavam intensas. Eu entrava de novo. Sentia calor, sentia frio... e as dores aumentavam.
Próximo das 14h, perguntei à Lena sobre a analgesia, pois estava pensando em tomar... não via o fim daquela dor que só aumentava.... Ela me explicou que se eu tomasse a analgesia, as contrações poderiam diminuir e que possivelmente eu teria que tomar também ocitocina sintética para voltar a induzir as contrações. E que todo o processo retardaria o parto em pelo menos uma hora... Nossa, uma hora! Eu queria era acelerar o parto! Perguntei a ela quanto tempo demoraria mais se eu não tomasse a analgesia. Ela obviamente não soube falar, mas disse que seria mais rápido... pensei, quem sabe às 15h ou às 16h isso já terminou?
A dor era muito forte... nessa hora eu já estava com 9cm de dilatação.

Ela então sugeriu que eu entrasse na banheira enquanto pensava sobre a analgesia. Ah!!! Chegou o momento da banheira! Entrei na banheira e aí sim entendi o propósito dela... ah, que delícia! Relaxei tanto que entrei meio em transe, conseguia até cochilar entre uma contração e outra... esqueci que tinha que tomar uma decisão! Eu só queria que aquilo acabasse logo. Durante o trabalho de parto, confesso que eu não pensava muito em como a Laura deveria estar se sentindo, e no quão difícil aquilo tudo deveria estar sendo para ela também. Eu só pensava mesmo em mim, no quão dolorido estava e por quanto tempo mais eu haveria de suportar aquela dor. Será que ainda iria aumentar? “Não sei se dou conta”, eu pensava... a Lena me falava para pensar em algum grande desafio que eu tive na minha vida e consegui superar e encarar aquilo como uma experiência desse tipo que eu iria vencer. Mas era difícil pensar em algo tão grandioso, tão intenso e ao mesmo tempo tão dolorido que pudesse se comparar ao que eu estava sentindo...
Na banheira, eu me sentia muito bem, mas as contrações estavam diminuindo e de tempos em tempos eu tinha que sair... sentia um frio incrível, tremia, as contrações voltavam. Já com 10cm, eu caminhava um pouco pelo quarto para facilitar a descida da Laura. Já via o sangue descendo, “deveria estar próximo!” Às vezes, sentia a pressão da cabecinha dela dentro de mim, sentia leves “cabeçadas” ritmadas e sabia que ela também estava se esforçando para sair. Depois voltava pela banheira.
Lá pelas 16h, como a evolução estava um pouco lenta, a Dr. Avelina sugeriu romper a bolsa, que ainda não havia se rompido até aquele momento. Isso iria intensificar as contrações e estimular a descida dela. A outra opção seria tomar ocitocina. Acho lindo os bebês que nascem ainda dentro da bolsa, na banheira, mas preferi deixar que
rompessem do que tomar qualquer remédio nesse ponto. A ocitocina natural do meu organismo já me causava enjoo e tonturas suficiente... Desapeguei da bolsa e ela então foi rompida. As contrações voltaram para valer!! Entrei de novo na banheira para tentar ter a Laura na água. O Pedro entrou também e fazia massagens e me dava forças o tempo todo. Se não fosse pelo carinho e incentivo dele durante toda a gestação e principalmente nesse dia, eu não teria conseguido passar pelo parto natural sozinha.
Nessa etapa, eu já não conseguia conversar ou prestar atenção nos assuntos. Depois de um longo período sem música, alguém sugeriu colocar um CD que eu gostasse. Escolhi um de música clássica. Foi muito engraçado, quando a primeira música começou a tocar eu dei um berro: “essa música nãaaaaaaao!”. Não sei explicar o que me irritou tanto na música, mas imediatamente trocaram para a próxima e eu me acalmei...
Já eram mais ou menos 17h e nada da Laurinha nascer. Num dos momentos de dor, enquanto a Avelina me examinava, eu gritei bem alto “Tira ela! Tira ela!”... rsrsrs O Pedro, sensibilizado, falou “Linda, não fala assim, fala: vem Laura, vem Laura”... rsrs mas nesse ponto eu já tinha perdido toda a minha “polidez”... hehehe me sentia como um bicho, falava o que pensava, urrava de dor!
Em determinado momento, a Avelina disse para eu tentar sentir a cabecinha dela e ver se estava muito distante. Coloquei a mão e conseguia sentir a cabeça dela!!! Percebi na hora que seria cabeludinha!! Que delícia aquele primeiro contato físico com minha filha!!! Notei que faltava uns 4-5cm para a descida. A Avelina pareceu achar isso muito. Falavam para eu fazer força, mas eu não conseguia saber se estava fazendo certo ou não... acho que fiquei naturalmente anestesiada! não conseguia nem saber quando vinham as contrações... eu já estava ficando fora de mim... Depois de algumas tentativas para ter ela na banheira, sugeriram que eu fosse para o banquinho para ver se evoluía um pouco mais. Eu tinha levemente idealizado o parto na banheira, mas não tinha ficado muito presa nessa ideia.
Fui para o banquinho e lá sim consegui fazer força e a descida evoluiu bem rápido... Depois de uns 20min a Avelina chamou a equipe do Santa Fé (pediatra e enfermeiras) e eu soube que estava bem próximo. Não sei nem descrever a dor que eu senti e a força que tive que fazer, eu gritava, urrava, acho que o quarteirão inteiro conseguia ouvir. Mas eu não me importava, queria só que ela nascesse logo! Ouvi a Avelina falar que ela já tinha “coroado” e que eu deveria fazer mais força. Ela disse que estava bem próximo e que se eu fizesse uma grande pressão ela nasceria. Então, reuni toda força que ainda me restava e empurrei para baixo, com uma intensidade que não consigo explicar. Vi a Avelina “abrindo” espaço para a passagem dela com a mão e em segundos ela saiu, e foi colocada imediatamente no meu colo.

A Laura nasceu às 17:42, exatamente no dia previsto, com 3,570kg, 50cm, ao som de minhas músicas clássicas favoritas (Bach, Pachelbel, Beethoven).
Foi tanta emoção que não há como descrever. Eu e o Pedro começamos a chorar e dar as boas-vindas a ela, dizer que a amávamos muito e que iríamos ajuda-la em sua missão na Terra. Alguns minutos depois o Pedro cortou o cordão umbilical e a Laura continuou no nosso colo. Em menos de uma hora encontrou o “caminho” para meu peito e já estava mamando!!! Fizeram os procedimentos padrão enquanto eu tomava os pontos. Em seguida, ligamos para as duas famílias para dar a boa notícia! Até então eles não sabiam que eu estava em trabalho de parto. Foi assim que planejamos para gerar menos ansiedade e vivermos esse momento com tranquilidade.
Fiquei fora de mim esse dia e cheguei a desmaiar mais tarde no quarto. A ficha foi caindo aos poucos, mas eu ainda não tinha entendido o que tinha sido aquele dia para mim. A intensidade da dor, a exaustão, as horas trabalho de parto falavam mais alto na minha mente. Nesse dia, achei tudo muito demorado, dolorido, não entendia por que tinha que ter passado por isso.

Minha recuperação foi excelente! No dia seguinte, já estava bem melhor, tomei banho, andava e até recebia as visitas de pé no quarto. No próprio sábado, dia 12 de março, recebemos alta e fomos para casa. Foi maravilhoso chegar em casa com a Laura, a mais nova integrante da nossa família e apresentar a ela seu quartinho, que havia sido preparado com tanto carinho. Me emocionei muito com esse momento tão especial nas nossas vidas. Tivemos uma noite deliciosa e revigorante. A Laura dormiu 6 horas seguidas e pudemos descansar. Já no domingo meu leite desceu com força total! Os dias que se seguiram foram bastante desafiantes e de muito aprendizado. Tudo novo, insegurança, noites mal dormidas, hormônios, dificuldades com a amamentação... por outro lado, muita alegria por ter a Laura conosco e por essa experiência maravilhosa que estava tendo.
Refleti muito sobre o parto. O que tinha sido aquela experiência? Ainda não conseguia processar tamanha dor e intensidade. Chorava ao lembrar e não conseguia acreditar que eu tinha conseguido passar pelo parto natural. Minhas amigas elogiavam, o Pedro estava orgulhoso de mim. Mas só de pensar ainda “doía”. Estava assustada. Conversei com a Doula, li e reli textos e depoimentos, refleti mais. Me sentia muito forte, vitoriosa, mas ainda não tinha percebido o sentido completo daquela experiência. Aos poucos e ao longo dos dias, fui me dando conta que o parto, por mais demorado e dolorido que tivesse sido, representava a minha transformação em “mãe”. Se tornar mãe não é fácil, por que a maternidade envolve muita renúncia, envolve deixar de lado parte de sua vaidade e de seu egoísmo para dar lugar a um novo ser.
Aos poucos, fui percebendo que tudo que eu vivi no dia do nascimento da Laura e nos dias subsequentes faziam parte daquela necessária transformação. Abrir mão do meu corpo, do meu bem-estar momentâneo, de momentos com meu marido e amigos, do meu sono, do foco na carreira, tudo aquilo doía muito em mim. Por mais que eu desejasse tanto ser mãe, era muito “dolorido”. Doía tanto que a dor se materializou no parto. A dor de deixar um pouco do meu egoísmo de lado, de deixar um pouco de mim para dar lugar e ela.
E era um caminho sem volta e para melhor. Percebi que por mais que doesse, eu precisava passar por isso, para me fortalecer, para estar pronta para os desafios da maternidade, da forma mais íntegra possível. Percebi que até então não estava preparada para tudo que estava por vir. O trabalho de parto foi difícil sim, mas talvez isso representasse a minha própria dificuldade de deixar para traz a pessoa que eu era para me tornar uma nova pessoa. Como é difícil se doar! E percebi que ao me queixar, eu só estava pensando em mim. Não estava pensando no quão difícil aquilo tudo deveria estar sendo para a Laura. Sair do quentinho do útero, onde havia alimento e aconchego o tempo todo... passar pelo canal vaginal, estreito, apertado... vir ao mundo, sentir frio, fome, ver toda aquela luz, escutar tantas vozes e sons, sentir dores... isso não deve ser fácil também!
Antes da Laura completar um mês, coloquei baixinho para ela ouvir as músicas clássicas que tocavam quando ela nasceu. Tive uma demonstração linda de como esse momento também é traumático para o bebê. Mesmo dormindo, ela começou a chorar, sem acordar. Desliguei a música e ela parou. Liguei novamente e ela voltou a chorar, tudo isso ainda dormindo!
Ao longo dos meses da licença, fui aprendendo a ver a maternidade não apenas da minha perspectiva, mas também da perspectiva do bebê. Como devem ser difíceis esses primeiros meses para o bebê! Então percebi que estávamos juntos naquele desafio. Eu aprendendo a ser mãe, o Pedro a ser pai e a Laura aprendendo a viver nesse mundo e a ser nossa filha. Aos poucos, os dias que estavam sendo “pesados, cansativos, difíceis”, começaram a ficar “leves, agradáveis e previsíveis”. Fui conhecendo um amor que nunca havia sentido antes. Um amor que não é imediato, mas que se constrói a cada dia e que tenho certeza que ainda aumentará muito mais. Não me tornei mãe no momento que a Laura nasceu, me torno mãe todos os dias. Erro, acerto, aprendo, cresço. Como é maravilhosa a vida e essa dádiva que recebi!
Não posso deixar de falar no quão importante também foi o Pedro nesse processo. Ele “abraçou” a experiência de ser pai por
completo. Desde os ultrassons ao longo da gestação, os primeiros movimentos dela na minha barriga, as decisões sobre o parto, ele esteve comigo em tudo! No dia do nascimento da Laura, foi essencial para me dar forças e ânimo. Participou, sofreu, se emocionou, assim como eu! Ao longo desses primeiros meses, fui descobrindo o “pai” que estava dentro do Pedro, só esperando a chegada da Laura para se revelar! Um pai maravilhoso, que participa de cada momento e não mede esforços para nos ver bem.
Hoje, percebo o quanto o parto natural me preparou para todas as renúncias que eu deveria fazer e nos uniu como família. Hoje me sinto forte, capaz e vitoriosa. Tenho a certeza de que se nós vencemos o parto, podemos vencer qualquer desafio juntos e essa força, essa certeza, fazer valer muito a pena a dor momentânea dessa bela transformação!